IA na saúde mental: quando ajuda, quando atrapalha e como se proteger

Agentes de conversação de IA podem ajudar com sintomas pontuais, mas não são recomendados a longo prazo. Entenda!

Imagine que você está ansioso, na cama há horas sem conseguir dormir e já são 2 da manhã. A ansiedade dispara e você percebe que precisa fazer alguma coisa para combater esse sentimento agora mas, por conta do horário, não tem ninguém para quem você possa ligar ou pedir uma ajuda. Por que não tentar se acalmar com a ajuda de uma IA?

Os chatbots (ou agentes de conversação) de IA têm se tornado grande parte do dia-a-dia de muitas pessoas, desde para ajudar com a produtividade e organização até para lidar com sentimentos negativos e situações desagradáveis. É neste contexto que mais e mais pessoas estão se voltando às IAs para conseguir alguma ajuda psicológica em momentos de necessidade.

Os agentes de IA são treinados de forma a processar a linguagem natural e responder como se fossem uma pessoa, o que dá a impressão de termos alguém de fato conversando conosco. Além disso, eles podem ajudar a analisar sintomas e apontar para possíveis diagnósticos a partir do que é relatado, o que pode ajudar ou prejudicar, a depender do caso.

Há de se questionar: será que esse hábito funciona mesmo? E, se funciona, será que é algo seguro a se fazer?

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Neste texto, vamos explorar o que a ciência diz sobre o uso de chatbots de IA para saúde mental, bem como os possíveis riscos associados e de que forma fazer o uso responsável dessa ferramenta.

O que diz a ciência?

Uma pesquisa publicada em 2023 no periódico científico Journal of Medical Internet Research avaliou o resultado de 32 estudos sobre o efeito das conversas com agentes de IA em sintomas psicológicos e descobriu que, em geral, as IAs ajudavam a combater os sintomas a curto prazo.

Os estudos contavam com um total de 6089 participantes, que relataram melhoras em sintomas depressivos, sintomas de ansiedade generalizada, sintomas ansiosos específicos, estresse, emoções negativas e até mesmo em sintomas de transtornos psicossomáticos (nos quais sintomas psicológicos se convertem em sintomas corporais).

Contudo, o que o estudo mostrou é que essa melhora nos sintomas é de curto prazo, ou seja, as IAs foram capazes de trazer um alívio imediato aos sintomas, mas esse alívio não se sustentava por muito tempo, deixando claro que o acompanhamento com profissional da saúde mental ainda é necessário para resultados eficazes a longo prazo.

Além disso, esses resultados se referem apenas a pessoas com sintomas leves e moderados. Quando se trata de pessoas que estão passando por uma situação de crise, por exemplo, há diversas evidências de que as IAs não são adequadas para lidar com a situação e podem até mesmo se tornar perigosas nesses momentos.

Um outro estudo publicado em 2023 no periódico científico Digital Medicine traz resultados parecidos: em 15 estudos, envolvendo 1744 participantes, os chatbots de inteligência artifical trouxeram um alívio moderado para sintomas psicológicos, como sintomas depressivos e ansiosos, bem como para emoções negativas.

O estudo não chegou a avaliar a longevidade desse alívio, mas trouxe algumas outras informações interessantes: os resultados foram melhores com chatbots de IA generativa se comparados a outros tipos de chatbots, e foram mais fortes quando foi usada uma IA com voz, comparado a IAs que respondem apenas por texto.

Além disso, esses efeitos também foram maiores quando a pessoa interagia com a IA usando um celular ou tablet, e menos eficazes quando a pessoa interagia com a IA através do computador.

Embora os estudos analisados tenham mostrado resultados promissores com o uso da IAs para alívio de sintomas psicológicos, a pesquisa resolveu qualificar as evidências como moderadas, considerando que os estudos usados eram bastante heterogêneos, o que abre margens para inconsistências e menor precisão nos resultados.

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Quando a IA não deve ser usada?

Os chatbots de IA não devem ser usados em situações de crise ou em casos complexos que necessitam acompanhamento profissional, e devem ser evitadas por pessoas com transtornos com potencial de sintomas psicóticos, como a esquizofrenia, o transtorno afetivo bipolar, transtornos de personalidade e traumas complexos.

Isso porque, nestes casos, os agentes de inteligência artificial trazem alguns comportamentos que podem piorar os sintomas, como a superficialidade, os erros nas respostas (popularmente chamados de alucinações da IA), e a tendência da IA de concordar com tudo que a pessoa diz (bajulação).

Quais os riscos de uso de IA na saúde mental?

Existem diversos riscos no uso de IA para saúde mental sem a supervisão e acompanhamento de um profissional capacitado.

Isso porque as ferramentas possuem limitações que podem trazer prejuízos ao indivíduo, em especial em situações de crise ou casos complexos.

Falhas de prevenção

A IA não consegue analisar contextos do jeito que um ser humano consegue e, por isso, suas respostas podem ser superficiais e não conseguir realmente trabalhar o cerne da questão.

Embora muitas IAs consigam entender quando uma pessoa está passando por um momento de crise, raramente as respostas que elas providenciam ajudam de alguma forma.

Muitas delas falham em apontar para recursos que a pessoa pode usar nesses momentos, trazendo apenas respostas empáticas, com palavras gentis, mas que não tem um efeito prático em momentos de crise em que a pessoa pode estar em risco.

Privacidade e coleta de dados

Outra preocupação grande no uso de IAs na saúde mental é a questão da coleta de dados e privacidade.

Embora você possa usar um chatbot de graça sem nem mesmo ter que criar uma conta, os dados que são coletados pelas empresas que fazem os chatbots podem ser cruzados com dados de outras empresas e isso pode eventualmente permitir que as empresas tenham conhecimento de quem é o usuário, mesmo sem nenhum login, mesmo prometendo anonimato.

Esses dados podem ser usados posteriormente, sem consentimento do usuário, para treinar algoritmos, desenvolver novos produtos, além de serem compartilhados ou vendidos para outras empresas que podem usar esses dados para diversos fins dos quais o usuário muitas vezes não tem conhecimento.

Isso significa que todos os medos e angústias compartilhados com a IA podem ser coletados e vendidos para diversas empresas.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) tenta barrar um pouco essa estratégia, classificando dados médicos como dados sensíveis que devem ser protegidos e que não podem ser usados sem o consentimento do usuário.

Contudo, nem sempre as empresas agem de acordo com essa lei, e o que vemos com frequência é o vazamento de dados de usuários de diversas empresas ao redor do mundo.

Indução ao perigo

Existem diversos casos em que os chatbots trouxeram perigos reais para pessoas ao dar conselhos perigosos, apoiar ideias nocivas e até mesmo induzindo a pessoa a comportamentos destrutivos.

Há registros de pessoas que estavam angustiadas em relação a alguma coisa  e a IA acabava encorajando essas pessoas a tirarem suas próprias vidas.

Há também casos de pessoas com sintomas psicóticos que tiveram seus delírios validados pela IA, causando ainda mais prejuízo em suas vidas. Isso porque os chatbots são projetados de forma a concordar com a pessoa, e não questionar quando há um pensamento delirante (como um terapeuta capacitado faria).

Dependência emocional e isolamento social

O ser humano tem uma tendência chamada de antropomorfização, que é a capacidade de atribuir qualidades, intenções e emoções humanas a objetos inanimados e até mesmo animais.

Ou seja, mesmo que saibamos que estamos falando com um robô, é natural que acabemos por criar uma certa afeição, como se aquilo fosse realmente uma pessoa conversando conosco.

E é aí que mora o perigo: ao usar os chatbots como confidentes, existe a possibilidade de um apego emocional.

Muitas pessoas já viram casos de pessoas que “namoram” IAs, mas não é preciso chegar nesse extremo para perceber um apego emocional prejudicial: se você já não consegue passar um dia sem conversar com sua IA, mesmo que seja num tom mais de amizade, já é um sinal de uma possível dependência emocional.

Isso se torna ainda mais perigoso quando pensamos que as IAs estão sempre disponíveis, sempre validando o que é dito e jamais julgando a pessoa.

A curto prazo, isso pode parecer benéfico. No entanto, a longo prazo, pode substituir a necessidade de busca por conexões reais com outras pessoas, levando ao isolamento social.

Isso é preocupante pois as IAs não são capazes de tomar as medidas necessárias em situações de crise, coisa que pessoas reais seriam capazes de fazer. O isolamento social também é conhecido por ser um dos grandes fatores contribuintes para a piora de sintomas de diversos transtornos mentais.

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Como usar a IA com responsabilidade?

Considerando todos os riscos, ainda assim é possível usar a IA para auxiliar na saúde mental em alguns casos, desde que haja acompanhamento de um profissional capacitado.

Antes de começar a usar um aplicativo de IA para ajudar com demandas de saúde mental, é importante se questionar algumas coisas. Dentre elas:

O aplicativo foi desenvolvido para saúde mental?

Hoje em dia, existem diversos tipos de chatbots no mercado. Alguns são mais generalistas, que prometem ser um ajudante em qualquer tipo de demanda. Outros são mais focados em áreas específicas: produtividade, áreas profissionais diferentes, estudos, entre outros.

E, neste contexto, existem os aplicativos que foram desenvolvidos justamente para cuidar da saúde mental. Tais aplicativos têm mais chances de dar respostas mais contextualizadas e conseguir direcionar a pessoa aos recursos necessários em diversas situações, mas não substituem o acompanhamento de um profissional da saúde mental.

Já os chatbots mais generalistas podem dar respostas mais rasas, falhar no direcionamento a recursos e não conseguir contextualizar as respostas de forma a realmente ter alguma relevância para a saúde mental.

Portanto, se o seu objetivo é cuidar da saúde mental, tenha preferência por aplicativos especializados.

O aplicativo promete curas ou resultados milagrosos?

É necessário desconfiar quando um serviço, qualquer que seja, promete curas e resultados milagrosos. As pesquisas apontam que há sim melhorias em alguns sintomas psicológicos com o uso de IAs, mas que os resultados não são duradouros, e o acompanhamento por um profissional da saúde mental é essencial para melhorias a longo prazo.

Vale lembrar que mesmo a psicoterapia não promete resultados rápidos ou cura, porque quando se trata de saúde mental, são diversas variáveis em jogo. Em geral, a psicoterapia ajuda o paciente a desenvolver habilidades e competências para lidar com os sintomas de transtornos mentais.

No que tange as IAs, elas podem ajudar o paciente a colocar essas competências em prática, ajudar a organizar as habilidades já desenvolvidas, mas em geral não é capaz de ensinar essas habilidades da mesma forma que um psicoterapeuta consegue.

Evite usar o aplicativo em momentos de crise

Embora o aplicativo possa ajudar a lidar com sintomas pontuais no dia-a-dia, os momentos de crise requerem um manejo muito mais humano e contextualizado, coisa que uma IA não consegue fazer.

Como falamos anteriormente, as IAs possuem alguns comportamentos que, em geral, podem apresentar riscos para pessoas em crise, como o caso da bajulação (concordar com tudo que a pessoa fala).

Portanto, em momentos de crise, busque ajuda humana, seja com um profissional da saúde mental ou com um familiar ou amigo de confiança que ajudará a acessar serviços de saúde mental.

Cuidado com o autodiagnóstico

Por mais que a ferramenta converse como se fosse outra pessoa do outro lado da tela, é importante ressaltar que ela não é capaz de diagnosticar doenças ou transtornos mentais.

A IA não consegue pegar nuances importantes que profissionais da saúde conseguem, o que pode alterar completamente o raciocínio diagnóstico.

Sendo assim, a IA pode apontar para possíveis diagnósticos a partir dos sintomas relatados, mas é importante buscar a avaliação de um profissional que leve em conta não apenas os sintomas, mas também todo o contexto no qual a pessoa está inserida e todas as nuances possíveis que podem influenciar no diagnóstico.

Vale lembrar que a IA tende a concordar com tudo que a pessoa diz, então se uma pessoa pergunta à IA se ela possui um transtorno, é grande a chance da IA dizer que sim e tentar justificar de formas errôneas.

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Não altere a medicação com base na IA

As IAs podem fornecer muitas informações acerca de medicamentos psiquiátricos, mas vale lembrar que as IAs não são médicos e não estão aptas para receitar medicamentos ou alterar dosagens.

Se você está lidando com efeitos colaterais indesejados durante o tratamento e gostaria de ajustar a dosagem, converse com um psiquiatra o quanto antes. Apenas um profissional da medicina devidamente capacitado pode fazer essas alterações de forma segura.

Quem está por trás do aplicativo e o que acontece com os meus dados?

Outro ponto importante a ser questionado é a questão da privacidade. Quando você usa um aplicativo deste tipo, tudo que você envia para o chatbot fica armazenado em um banco de dados no servidor da empresa que disponibiliza o aplicativo.

Neste sentido, é importante saber qual empresa está por trás do aplicativo e o que ela faz com os seus dados que ficam armazenados em seus servidores.

Questione-se se a empresa possui uma política de dados transparente, se você consegue entender de que forma seus dados serão tratados e manipulados, e se existe alguma chance da empresa compartilhar seus dados com terceiros.

Algumas palavras para ficar atento ao ler os termos de privacidade e política de dados são:

  • Anunciantes;
  • Parceiros de publicidade;
  • Marketing;
  • Terceiros;
  • Afiliados;
  • Empresas do grupo;
  • Fins comerciais;
  • Melhoria dos produtos;
  • Dados anônimos;
  • Agregados.

Vale lembrar que quando uma empresa promete que os dados são anonimizados, isso não significa que não é possível descobrir quem está fazendo o uso das IAs. Empresas especializadas em cruzamento de informações podem facilmente cruzar os dados e descobrir exatamente quem está por trás das conversas com a IA.

Além disso, se uma empresa diz que pode usar os dados para melhorar seus produtos, isso significa que as conversas em si podem ser usadas para o próprio treinamento do modelo, de forma que aquilo que você diz para a IA não é confidencial.

Além disso, fique de olho na possibilidade de apagar seus dados. As empresas devem ter um guia claro de como apagar sua conta e todos os seus dados. Se isso não está transparente, é provável que a empresa esteja usando seus dados para outros fins e, por isso, não deseja que você consiga apagá-los com facilidade.

As IAs podem ajudar pontualmente em alguns sintomas psicológicos, mas é necessário cuidado. Se você está passando por alguma questão e sente que precisa de ajuda, não hesite em procurar um profissional da saúde mental.

Em caso de crises, busque ajuda nos seguintes recursos:

  • Centro de Valorização à Vida (CVV): ligue 188;
  • Unidades Básicas de Saúde (UBS), também chamadas de “Postos de Saúde” ou “postinho do SUS”;
  • CAPS – Centro de Atenção Psicossocial;
  • SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência): ligue 192.

Referências

Li H, Zhang R, Lee Y-C, Kraut RE, Mohr DC. Systematic review and meta-analysis of AI-based conversational agents for promoting mental health and well-being. npj Digital Medicine. 2023;6:236. DOI: 10.1038/s41746-023-00979-5.

He Y, Yang L, Qian C, et al. Conversational Agent Interventions for Mental Health Problems: Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Controlled Trials. Journal of Medical Internet Research. 2023;25:e43862. DOI: 10.2196/43862.

Conselho Federal de Psicologia (CFP). Chatbots, Inteligência Artificial e sua Saúde Mental: um guia para navegar com mais segurança na nova fronteira digital.

https://time.com/article/2026/10/09/chatbots-suicide-research

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